Cultura
12/11/2004
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Ceta apresenta teatro brechtiniano
As injustiças sociais sempre foram a temática preferida do dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898 - 1956). Em textos poéticos e divertidos, mas que mantém como essência a reflexão crítica, o legado desse ícone do teatro e da poesia é enfatizado na defesa dos valores da individualidade. Seguindo essa abordagem, a Companhia Estável de Teatro Amador de Piracicaba (Ceta), apresenta neste fim de semana o espetáculo “A Alma Boa de Setsuan”, às 20 horas, no Engenho Central.
A 22º montagem da companhia tem como proposta colocar o espectador na berlinda, onde o papel de juiz é entregue ao público com toda a autoridade que um texto de Brecht permite. A observação aguçada é indispensável durante toda apresentação e no decorrer da trama, o espectador é instigado a procurar uma resposta para o drama de Chen-Te, personagem central da história: “Como permanecer bom e levar uma vida digna?”.
O poético e divertido texto apresentado pela Ceta, relata a trajetória da única alma boa que os deuses encontram na Terra, apesar de ser pobre e prostituta. Mas os golpes da vida transformam a dócil e meiga personagem num ser capitalista e selvagem capaz de explorar os pobres e mantê-los num regime de semi-escravidão. Seria Chen-Te capaz de sustentar essa forte personalidade até o fim da trama? Essa é mais uma das questões que estarão presentes durante a encenação da companhia.
O desafio da atriz Daniela Cavagis é manter em palco a comicidade e ironia de um personagem central controverso, mas que mantém em sua essência muito mais que um ser inescrupuloso. “A Daniela possui uma interpretação marcante nessa peça, até porque permanece na atuação do começo ao fim. Ela foi uma atriz que assumiu uma tarefa séria e consciente. Para chegar ao resultado final, foi preciso um apuro técnico e também um trabalho profissional”, diz Simoni Bôer, diretora da peça.
Com um trabalho corporal e vocal marcante, a Ceta está de volta aos palcos com boa parte do elenco renovado. Isso se deve ao trabalho desenvolvido por Simoni e Gustavo Trestini, que selecionaram, em 2003, quarenta novos integrantes, dos quais permaneceram no grupo cerca de vinte. A partir de pesquisas, oficinas e dinâmica de grupo, a escolha por um texto forte aconteceu porque “Brecht é um gênio da dramaturgia e, mesmo tendo escrito a peça em 1940, leva o homem contemporâneo a reflexão. O teatro deve ser definido como antes de Brecht e depois de Brecht”, destaca a diretora.
Quem comparecer a estréia da peça terá a oportunidade de reconhecer alguns atores que tiveram um papel essencial na trajetória da Ceta. É o caso de João Scarpa, que fez parte do elenco de “Fuenteovejuna”, peça encenada pela companhia em 2003. Há ainda a atuação de Felippe Limonge, Washington Poppi, Conrado Gallucci, Marcos Thadeus e um grupo composto por 23 atores.
O que ainda merece atenção especial na nova trama da Ceta é o trabalho de direção musical desenvolvido por Hilara Crestana, atriz, musicista e aluna de Composição e Regência na Unicamp. “Ela é uma profissional gabaritadíssima, simplesmente arrasa”, acredita Simoni.
O ponto forte do trabalho em equipe da Ceta, na opinião de Simoni, foi a determinação dos atores ao encarar um texto denso, fora do circuito comercial do teatro e que não apela para o “riso frouxo”. “O nosso objetivo não é o de profissionalizar ninguém, mas neste um ano de ensaio pude notar que o pessoal possuía um exercício de tolerância, solidariedade e respeito às coisas diferentes. Eles souberam captar bem o significado de uma ação, da linguagem teatral e do senso crítico”.
SERVIÇO
O espetáculo “A Alma Boa de Setsuan”, da Cia. Ceta, será apresentado hoje e amanhã, às 20 horas e no domingo, às 19 horas, no mezanino do Armazém 9 do Engenho Central. A montagem permanece em cartaz até 12 de dezembro, sempre aos finais de semana. A entrada é franca e os ingressos serão distribuídos uma hora antes da apresentação.
BOX
Era uma vez a Ceta
A Companhia Estável de Teatro Amador de Piracicaba (Ceta) foi criada em 1991 pela Secretaria de Ação É regulamenta por lei e possui como objetivo o desenvolvimento de atores amadores e criação de espetáculos. De 1992 a 2000, a cia. teve como diretores Marcília Rosário e Reinaldo Santiago, responsáveis pela elaboração de 19 espetáculos. A partir de 2001, a Ceta recebe direção artística de Simoni Boer e Gustavo Trestini.
Montagens:
“1492 América”, de Reinaldo Santiago e Marcília Rosário
“Os Saltimbancos” de Marli T. G. Perecin
“O Pastelão e a Torta” de Autor desconhecido
“O Casamento Forçado” de Moliére
“Rádio Teatro”, criação do Grupo
“O Camaleão” de Anton Thecov
“As Incontestáveis Mães” de Dino Bussati
“O Que Queremos Fabricar” de Reinaldo Santiago
“Porque Estamos na Guerra” de Reinaldo Santiago
“Tabarin”, de Autor desconhecido
“Humulus” de J. Anovih e Ionesco
“Esta Propriedade Está Condenada” de Tennesse Williams
“Édipo Rei” de Sófocles
“Viva Brecht !”, de Bertold Brecht
“Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto
“Aquarela do Brasil” de Minas Kuyumjiam Neto
“Pretextos” de Minas Kuyumjiam Neto
“Deus” de Woody Allen
“Vera Cruz...Brasil Primeiros Tempos” de Reinaldo Santiago
“Na Roça” de Belmiro Braga
“Fuenteovejuna” de Lope de Veja
“A Alma Boa de Setsuan” de Bertold Brecht
Publicado em 12/11/04
Autor: Rodrigo Alves
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