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Desde: 17/05/2004      Publicadas: 50      Atualização: 12/11/2004

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 Cultura
  30/07/2004
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Colégio recompõe cozinha do antigo internato
Fotografias de época serviram de base para montagem; para reconstrução, local contou com doação de objetos antigos da comunidade

Imagine a importância de um fogão a lenha nos dias de hoje. Com a modernidade, o objeto tão útil nos tempos antigos tornou-se obsoleto e sequer faz parte do cotidiano das cozinheiras. Foi esta peça que movimentou os responsáveis pelo Centro Cultural Martha Watts. A idéia era reconstruir a antiga cozinha do Internato do Colégio Piracicabano e o fogão a lenha de ferro seria a peça essencial para o ambiente. No dia 10 deste mês, o público terá acesso não apenas a essa velha utilidade doméstica, mas tudo o que praticamente fez parte da realidade da cozinha do primeiro centro de educação metodista no país.

“É importante lembrar que o ambiente que recriamos da cozinha não retrata um período específico apenas, mas sim um recorte histórico de várias épocas”, esclarece Martha Helena Rivero, responsável pela reconstituição museográfica do ambiente. Ela contou com várias fotografias para pesquisa e, por isso, teve que priorizar detalhes que variavam da década de 20 até os anos 60, quando o Colégio Piracicabano possuía o internato feminino e, posteriormente, o masculino. “Para começar a recompor os detalhes da cozinha, também foi preciso contar muito com a imaginação, lembrando que o ambiente devia de ser muito gostoso”, informa ela, que teve o apoio dos bolsistas e estagiários do Centro Cultural. A concepção do espaço foi do arquiteto Hélio Dias da Silva, diretor do Centro Cultura Martha Watts.

“A cozinha passou por várias mudanças e também ficou em vários cômodos do Colégio”, completa Martha, que iniciou a campanha em busca pelo fogão em fevereiro deste ano. Após a divulgação na imprensa, ela recebeu 12 diferentes estilos de fogão a lenha, mas apenas dois estavam mais próximos às fotografias antigas. O acessório que agora ficará no ambiente pertencia a Norma Anichino Amaral.

Durante a campanha, Martha recebeu mobiliários e utensílios domésticos, que complementaram o acervo já existente na reconstrução do ambiente. A coordenação do Museu tomou o cuidado de utilizar talheres de época, pães e bolos artificiais - mas bem semelhantes aos reais - para garantir a autenticidade do cenário.

O antigo ambiente não era palco apenas do trabalho incansável das cozinheiras, mas até hoje está vivo na memória dos ex-alunos do colégio, que guardavam grande carinho pelas senhoras que tinham a missão diária de alimentar seus estômagos e deixa-los pronto para estudar.

A afetividade aumentava durante o passar dos anos, principalmente pelo fato dos meninos e meninas serem de vários estados do país, retornando a suas famílias apenas nas férias. Prova disso está nas declarações que Martha colheu com os ex-alunos e ex-funcionários do colégio. “Muitos se lembram dos momentos em que tentavam distrair uma ou outra cozinheira, sempre em busca de roubar alimentos escondidos”, constatou.

Existia um ritual iniciado às cinco horas da manhã para cumprir o cardápio diário. Uma das pessoas que marcou várias fases da cozinha foi Maria Zélia Januário, a Dona Zelinha, falecida no ano passado. Ela atuou no ambiente de 1955 a 1962, mas permaneceu no Colégio até dias antes de morrer. Dona Zelinha deixou um relato que descreve com detalhes o corre-corre diário. Para se ter idéia, ela saía todos os dias, numa carroça, para buscar sacas de arroz e de batatas no depósito ainda existente na avenida Dr. João Conceição. Ela ainda fazia compra nos antigo Supermercado Brasil e Casa Munhoz. Também era Dona Zelinha que levava lenha nos braços todos os dias, durante os intervalos das atividades.

A cerimônia de apresentação da cozinha do Internato do Colégio Piracicabano acontece no dia 10, às 11 horas, no Salão Nobre do Centro Cultural Martha Watts (rua Boa Morte, 1257). No dia 13, haverá um jantar – por adesão – de confraternização, na sala anexa à Cozinha do Internato. Os ingressos podem ser retirados na recepção do local até o dia 10. Após o dia 10, as visitas à cozinha - que possuem entrada franca - poderão ser feitas de segunda à sexta-feira, das 9 às 12 horas e das 14 às 18 horas. Aos sábados, das 9 às 12 horas. Mais informações: 3124-1889

Alunos tinham acesso a um cardapio variado

Entre uma lição e outra, um passeio ao cinema da cidade, ou aos cultos e missas, a cozinha, com certeza, marcava o rito de passagem de cada aluno do antigo internato. A cozinha era no local onde tudo era preparado com muita dedicação e carinho. Talvez o trabalho fosse tanto que os alunos sequer podiam imaginar os esforços da equipe da cozinha. Nos relatos coletados com os ex-alunos o que mais ficou na memória foi o cardápio variado.

No café da manhã, para toda a garotada era servido canjica, sagu, mingau de aveia – como descreveu Dona Zelinha –, café com leite, pó de aveia ou amigo e ainda pão com manteiga e geléias.
Para o almoço, uma professora, que não era nutricionista, mas lecionava economia doméstica, tomava os cuidados para uma dieta balanceada. Arroz, feijão, uma salada com direito a vários legumes e verduras, carne, frutas em calda de açúcar queimado e marmelada com queijo prata. O acompanhamento era um copo de suco de uva, servido na mesa em jarra de alumínio.

Com certeza, o que a maioria dos estudantes queria é que chegasse o domingo, quando a sobremesa se tornava mais saborosa. A opção era queijo com goiabada, gelatina, pudim de pão, manjar branco com ameixas e tortas de maças.

No recreio, os internos recebiam um copo de leite e duas fatias de pão, além de uma fruta de estação. Para a noite, durante o jantar, algo leve, para que todos dormissem bem. Eram servidos sopa de macarrão, feijão batido no liquidificador, legumes, verduras, peixe e polenta. Os ovos fritos mexidos causavam até briga entre os alunos, mas eram o prato que podiam saborear à vontade.

Ambientes do museu contam história do antigo internato

Quem passa pela rua Boa Morte, no número 1257 e vê um belo casarão restaurado, repleto de beleza e diferente arquitetura, mal pode imaginar a história que o local carrega. Fundado em 27 de junho do ano passado, o Centro Cultural Martha Watts retrata o trabalho da missionária metodista Miss Martha Watts, que veio do sul dos Estados Unidos para criar um centro de educação para mulheres. A determinação e coragem da missionária em Piracicaba teve início em 1881, com a fundação do Colégio, e sua continuidade se deu em 1884, quando foi inaugurado o prédio que hoje abriga o Centro Cultural. O local está aberto à visitação pública e recebe agendamento das escolas públicas e privadas da cidade.

O tempo passou e a trajetória da missionária consolidou-se como pioneira em todo o mundo. E não é à toa que o espaço preserva a história do que é hoje o Instituto Educacional Piracicabano (IEP). Um dos ambientes que impressiona é o dormitório das internas, que possui as antigas camas batentes; o escovão, acessório usado para encerar o piso de madeira, e os baús de madeira.
Seguindo o trajeto, o visitante passa pela sala de aula e laboratórios, munidos de vidros da época, equipamento de física e química e até a maça em cima da mesa da professora. O espaço revela ainda as diferentes fases das carteiras escolares e os variados uniformes.

Um objeto curioso no museu é a “Holly Bible”, trazida dos Estados Unidos por Martha Watts em 1882. A iluminação realça o material da capa, confeccionado em madeira com filetes de ouro. A Bíblia foi inteiramente restaurada, folha por folha, por especialistas brasileiros, e recebe proteção de um vidro.

Todo o trajeto fica sem sentido se o visitante não passar pelo Túnel do Tempo, ambiente que dá acesso ao quarto onde ficava Miss Martha Watts. No local, uma mesa repleta de bolos e artefatos, que servia para o tradicional “Chá das Cinco”. Ao lado, o escritório da Miss Stradley, uma das diretoras que marcou as boas fases do Colégio.

Reportagem publicada na edição de 30 anos da Tribuna Piracicabana, em 01 de agosto de 2004
Foto: Fábio Teixeira
  Autor:   Rodrigo Alves
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