
Ao contrário do que aconteceu na estréia nos Estados Unidos, o filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, produção que narra as últimas 12 horas de Jesus de Nazaré segundo o Evangelho de Mateus, não teve grande repercussão nos cinemas de Piracicaba durante a sessão de estréia. Pensando na alta procura do público, a administração do cinema disponibilizou quatro salas com o filme, todas com horários aproximados, mas o público não apareceu.
A primeira exibição aconteceu às 11h30 e teve sete pessoas, dentre eles, o teólogo Ismael Forte Valentim, que, a convite de A Tribuna Piracicabana e com apoio do Cine Shopping Piracicaba, analisou a produção considerada anti-semita. Valentim é diretor da Faculdade de Ciências da Religião da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). Graduado em pedagogia, filosofia e teologia, fez pós-graduação em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp).
Na opinião dele, a ensangüentada “Paixão de Cristo” é uma inspiração de Mel Gibson, que, além de se basear no Evangelho, inseriu trechos que não constam no texto bíblico. “O filme segue o estilo do diretor, que está acostumado a impressionar. É uma versão hollywoodiana da morte de Jesus”, diz Valentim.
A “Paixão”, segundo Gibson, começa e termina num clima de tensão. Ao lado dos apóstolos Pedro, Tiago e João, o filme revela um Cristo forte, encorpado e nos padrões de outras produções que tiveram o mesmo enfoque. A figura do demônio escolhida pelo diretor é representada por uma sombria mulher, que persegue Cristo nos momentos agonizantes. Horas antes da caminhada ao Calvário, ao lado da tentação, o Jesus de Gibson esmaga a cabeça de uma serpente, numa cena que comprova “a imaginação e o poder de criação do filme”, como ressaltou Valentim.
Acusado de blasfêmia pelos judeus, o personagem é negado por Pedro, traído por Judas e chicoteado pelos Romanos. Começa a saga de um Cristo disposto a sofrer nas mãos dos soldados romanos. Arrependido do feito, Judas entra numa cena que comove: o próprio enforcamento. Mas esta é apenas uma das muitas cenas brutais usadas na produção do filme.
Segundo o teólogo, o filme possui alguns momentos equivocados, como a cena que antecede a morte de Judas, que, no relato de Gibson, é perseguido por crianças, que o insultam. “Ele deve ter se baseado na malhação de Judas, mas desconheço este trecho do filme na bíblia”. Outro fator ressaltado pelo teólogo são as idas e vindas de Cristo diante de Pilatos, que acontece três vezes. “Ele foi apresentado apenas uma vez a Pilatos”, acrescenta, segundo as escrituras.
A grande polêmica do filme, no entanto, pode passar de relance aos leigos: o trecho que dá margens para o anti-semitismo. Em um dos encontros, Pilatos pede desculpa a Jesus, mas ele volta-se para o governador e diz que “quem me entregou a ti tem maiores pecados”. Nos relatos bíblicos, Jesus foi entregue pelos judeus.
Além da cena da crucificação, a mulher está em constante evidência. Ela participam da agonia de Cristo durante toda a narrativa. “Na Bíblia, a participação da mulher é rara e quase não acontece nos relatos”, afirma o teólogo.
Valentim acredita ainda que o filme possui uma intenção diferente do texto bíblico. “O evangelho foi escrito a partir da ressurreição e dá mais importância para este fato. Já o filme possui muitas cenas que mostram bastidores do que aconteceu, com diálogos criados e que não estão relatados na Bíblia. São suposições que evidenciam a brutalidade e focam mais o sofrimento”, esclarece o teólogo.
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