
“Sim! Não!” Estas duas palavras - possivelmente - foram ditas 15 mil vezes durante o último sábado e domingo (21 e 22 de agosto), num evento realizado na sala de convenções do Bristol Center Flat. É que os sete integrantes do júri de seleção dos trabalhos do 31º Salão Internacional de Humor de Piracicaba estiveram reunidos no local, dispostos a analisar os melhores traços para integrar a exposição principal do consagrado evento. Dos 1.430 trabalhos recebidos, apenas 286, distribuídos nas categorias charge, cartum, caricatura e tiras, poderão ser conferidos no evento, que começa no dia 28, no Armazém 14 do Engenho Central. Os nomes dos selecionados estão disponíveis no site www.salaodehumordepiracicaba.com.br.
Além de bom humor e paciência, a seleção seguiu com base num critério muito pessoal, sob a triagem dos cartunistas Paulo Caruso, Dalcio Machado, Gualberto Costa e Lucas Longo. Também os jornalistas Ângela Furlan (Gazeta de Piracicaba), Rodrigo Alves (A Tribuna Piracicabana) e Maurício Ricardo (site charge.com) analisaram os trabalhos.
Das caricaturas inscritas, 82 devem integrar a mostra. A maioria retrata personagens do cenário político mundial, como é o caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, George W. Bush e Saddamm Hussein. Do ciclo televisivo, os mais desenhados foram Daiane dos Santos, Ed Motta, Milton Nascimento e Malu Mader. Na categoria charge, com 72 selecionados, os temas que prevaleceram seguiam o humor associado aos fatos jornalísticos, com prioridade para o desarmamento e questões ambientais. Os artistas Flávio Rossi, Érico San Juan, Jayme Leão, Willian Hussar, Erasmo Spadotto, entre outros, constam na lista dos selecionados para a mostra. Quem também não deixou de ser incluído foi Jurij Kosobukin, da Ucrânia, artista premiado em várias edições do Salão de Humor.
A interpretação jornalística dos fatos, na opinião de Paulo Caruso, prevaleceu na 31ª edição. “Quem é da área costuma analisar muitos trabalhos e ter uma visão crítica. Aqui em Piracicaba, o que eu percebi, é uma tendência para temas mais políticos e internacionais. As charges abordam realidades imediatistas, o que, com certeza, deu ao Salão um tom diferente dos anos anteriores. Não sei se tudo isso representa uma queda de qualidade, mas, pelo menos, é uma fragilidade”, diz ele, que já atuou na seleção e premiação dos trabalhos em 12 edições.
O artista gráfico também se mostrou “surpreso” com o volume de trabalhos enviados. Para ele, eventos realizados em São Paulo, no Memorial da América Latina, como o lançamento do livro “Piracicaba, 30 anos de Humor”, ajudou a levantar o nome do Salão, mas não atraiu novas inscrições. “Talvez isso não aconteceu porque outros salões acontecem em datas muito próximas. O que ainda pode ter atrapalhado foi a divulgação, que começou muito em cima da hora. Outro fator de peso na hora de inscrever um trabalho é o valor do prêmio, que em Piracicaba é relativamente baixo”, diz Caruso.
Na opinião do piracicabano Lucas Longo, pela primeira vez no julgamento, os artistas selecionados devem se considerar vitoriosos. “Cada desenho passa de mão em mão e, quase sempre, tem que agradar todo os membros do júri. A pessoa que garante a exposição da sua obra, independente de ganhar algum prêmio, deve ficar contente e se considerar vitoriosa”, diz ele, lembrando das oportunidades que teve de expor seus trabalhos no Salão. Com apenas 26 anos, Lucas começou na área aos 12. A influencia veio do pai, o artista Fausto Guilherme Longo, selecionado nas oito primeiras edições do evento.
Um outro artista fanático pelo Salão de Piracicaba é o caricaturista campineiro Dálcio Machado. Vencedor de mais de 60 prêmios em humor gráfico, inclusive no exterior, Machado integra o júri de seleção dos trabalhos há dois anos, sempre atento às novas revelações da área. “Desde os 14 anos eu acompanho o ritmo e a evolução das caricaturas. Esta categoria é o meu grande xodó e o que mais admiro é o fato da nata do humor brasileiro estar representada aqui neste Salão”, acredita Machado.
Para Gual, Salão está
na fase da caricatura
Gualberto Costa, o Gual, do Museu de Artes Gráficas (Mag) acha que o Salão viveu e ainda deve viver várias fazes: “Este ano, a soberania foi das caricaturas”. Mesmo com o diagnóstico, ele acredita que “um dia vai chegar a vez das tiras”. Outra categoria que merece destaque para Gaul é a dos cartuns. “Esta é modalidade do Salão que eu costumo chamar de resistente. Isso porque nos salões de humor os cartuns nunca deixaram de existir. É graças ao entusiasmo de vários artistas, que não possuem espaço na mídia e, por este motivo, encontram nos salões a única alternativa de ter a arte exposta”. Gual não deixa de dar sua opinião sobre as charges, que ano-a-ano são embaladas pelos fatos em destaque na mídia e acontecimentos políticos. “Esta modalidade teve seu boom na Ditadura, logo no início do Salão de Humor de Piracicaba, mas até hoje traz a história do Brasil e do mundo. As charges servem para que todos reflitam sobre o rumo que a humanidade está tomando”, diz ele, que completa: “Em países do Oriente Médio, a liberdade de expressão é o assunto que mais desperta interesse nos chargistas”.
Em tom de experiência (ele acompanhou o nascimento e crescimento do Salão de Piracicaba), Gual informa ainda que a cidade projeta muitos artistas no exterior. “Quando um brasileiro vai à Europa, ao invés dos europeus perguntarem se ele é de São Paulo, perguntam se é de Piracicaba. Não existe termômetro melhor que esse para classificar o sucesso desse trabalho”.
Opinião
Os bastidores da seleção
Rodrigo Alves
“Céu, purgatório e inferno”. Estas foram as primeiras palavras que avistei ao chegar no Bristol Center Flat, no último sábado. Lá tive contato com os veteranos do humor, como Paulo Caruso e Gual, e também com colegas de profissão, como a jornalista Ângela Furlan e Marcelo Basso. O clima quente, na verdade, somou à ansiedade de fazer parte do júri de seleção do Salão de Humor, onde representei A Tribuna Piracicabana.
A forma como os desenhos são tratados na “divertida cerimônia” chama atenção de qualquer leigo. Após as análises, cada trabalho pode ter três destinos, diga-se de passagem, três cadeiras: “céu, purgatório e inferno”. No caso do “céu”, apenas os que conquistaram um “sim” de todo o júri. O mesmo critério foi definido para a cadeira “inferno”, com trabalhos que receberam um “não” unânime.
Não posso esquecer ainda de citar o “purgatório”, destino dos desenhos que conquistaram, no mínimo, um integrante do júri. Quantas vezes cheguei a olhar um trabalho e dizer: “Ele é legal!”. Mas ao meu lado, via o descontentamento. Mesmo assim não “arredei o pé” e pensei: “os cartunistas analisam o traço, a técnica, enquanto eu, tenho que ver o lado popular”. Ao meu lado, a colega Ângela concordava. As dúvidas surgiam, mas aos poucos, eram esclarecidas.
Mesmo com a “notável” diferença de critérios de seleção, a maior lembrança do fim de semana talvez seja a descontração dos cartunistas, caricaturistas e chargistas. Não posso esquecer ainda de citar uma oportunidade ímpar. A de “visivelmente” acompanhar a satisfação destes profissionais com a chegada de um trabalho “graficamente perfeito”. Eles olham, admiram e com alegria encaminham a obra ao glorioso “céu”. Com esta postura, eles ajudam na construção de um Salão perfeito, profissional e a cada dia mais consagrado.
Crédito da foto
Fábio Teixeira Mais notícias da seção
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