Cultura
08/07/2004
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Sarau do Riso: pronto para contar histórias
Seis meses de ensaio, aprendizado e pesquisa; a maratona foi enfrentada por 18 pessoas, integrantes da Cia. da Tia Carmelina; agora, chegou a hora de fazer a primeira apresentação
Contar histórias. Esta será a missão que os 18 integrantes do grupo “Sarau do Riso” terão que cumprir hoje, às 20 horas, quando sobem ao palco do Sesc Piracicaba. Eles ficaram do final de janeiro, até a noite de ontem, sob as mãos de Tia Carmelina Toledo Piza, que despertou em cada um a magia de transmitir fábulas, poesias e contos.
Os novos contadores, também das cidades de Araras, Santa Bárbara D´Oeste e Americana, irão apresentar várias histórias diferentes, sempre com uma dose de bom humor. Entre elas estão os “causos” de Pedro Malazartes, um divertido caipira. Também entra em cena a história de “Filomena”, uma costureira de mão cheia que há tempos estava encalhada e encontrou um marido para se casar. Com texto de Luís Fernando Veríssimo, os contadores trarão “O critério”, “El Rei Dom Sapo”, de Thales Castanho de Andrade, e “A morte do Toninho”, do professor piracicabano Henrique Cocenza. O público poderá conhecer ainda as divertidas “As três laranjas mágicas” e “O Marajá”.
Esta é a sexta turma de Carmelina, que iniciou seu trabalho como “professora para contadores” em 1999, quando criou o espaço A Arte de Contar Histórias. “Nas primeiras aulas os alunos apenas ouvem as minhas histórias, o que considero uma espécie de provocação. Depois eles partem para a pesquisa e começam a montar suas próprias histórias. Tudo é por conta deles, inclusive a pesquisa”, afirma Carmelina.
No decorrer do curso, os futuros contadores de histórias percorrem várias instituições da cidade, como é o caso do Centro Educacional do Bom Menino, Santa Casa de Piracicaba e Hospital dos Fornecedores de Cana. Eles fazem na prática tudo o que aprenderam com Tia Carmelina, desenvolvendo, ao mesmo tempo, o lado voluntário.
Na última segunda-feira, o grupo fez um dos ensaios finais e a maioria dos alunos se mostrou nervoso, mas a descontração prevaleceu. “É normal. É algo que está dentro de nós e que precisa ser colocado para fora. É uma energia muito forte, mas tudo passa no palco, onde vemos a beleza da arte que é contar histórias”, diz Carmelina.
Jaqueline Melo Ferreira, 35, trabalha na catequese da Igreja do Bom Jesus. Ela começou o curso por intermédio do padre Cipriano, da paróquia Bom Jesus, e desde o primeiro mês já saiu a contar histórias nas escolas da redondeza e até para os próprios alunos. Como já fez curso de teatro, está um pouco acostumada com toda a adrenalina e expectativa antes da apresentação. Agora, Jaqueline quer fazer parte da Cia. da Tia Carmelina e atuar como voluntária nas entidades da cidade.
O casal Marcelo Falavigna, 37, e Silvia Falavigna, 37, vieram de Araras só para aprender a contar histórias. “Quando nós comentávamos que existia este curso, as pessoas achavam estranho. Aqui aprendi que contar histórias é uma coisa séria e bonita. A nossa vida é uma longa história”, diz ele, que trabalha na área de vendas e acredita que o curso o deixou menos inibido.
Marcelo conseguiu tirar uma outra lição com as aulas: “Aprendi a pegar o esqueleto da história e procurar diferentes alternativas, ou melhor, os vários desfechos para chegar ao final”, informa.
O interesse de Silvia, esposa de Marcelo, pelo curso também era para o auxílio profissional. Ela dá aulas para crianças de terceiras e quartas séries do ensino fundamental e acreditava que Tia Carmelina seria a pessoa ideal para “tirar o medo de falar em público”. Quatro meses depois, o casal se aperfeiçoou e, além de progredir nas suas áreas, já desenvolveu trabalhos comunitários a cada quinze dias, para as crianças da zona rural de Araras.
O advogado José Ricardo Quirino, 46, não sofre com o problema de timidez nos palcos, já que a profissão lhe ensinou a agir em público. Mesmo assim, procurou o curso para “resgatar a criança interior e reaprender a sonhar”. Ele acredita que Carmelina “coloca Piracicaba dentro de um contexto cultural e a cidade deixa apenas de ser a terra da pamonha ou da pinga, passando a ser o local dos contadores de história”.
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