
O governo do Estado de São Paulo comemora, neste mês, um ano de implantação do Programa Escola da Família, com apoio da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Mais que um simples projeto, o beneficio se estende para cerca de 80 mil moradores das 59 escolas estaduais da cidade, com atendimentos nas áreas de saúde, cultura, esporte e qualificação para o trabalho. As crianças, ao invés de ficarem soltando pipa na rua ou assistindo televisão, ganharam uma nova opção de lazer e entretenimento. Ao trazer os filhos e ver que estavam bem cuidados, muitos pais se animaram e agora contribuem com a manutenção das escolas, além de terem a oportunidade de freqüentar os diversos cursos oferecidos.
Dados comprovam que o Programa minimizou o problema de agressividade, antes tão freqüente dentro das escolas e nas suas proximidades. Segundo pesquisa da Secretaria da Educação, entre setembro de 2003 e abril deste ano, o número de roubos de equipamentos escolares não atingiu a taxa de 28%. A danificação de veículos dentro da instituição educacional e nas redondezas diminuiu 31%, além de queda de 16% nas invasões e furtos.
As atividades do “Escola da Família” acontecem nos estabelecimentos de ensino do Estado, aos sábados e domingos, sempre das 9 às 17 horas. Todas as pessoas, sem limite de idade, podem participar das ações culturais, esportivas e profissionalizantes, seja como aluno ou como voluntário. A principal das intenções, aliás, é conscientizar a população e tratar de questões referentes aos mais diversos assuntos que fazem parte do cotidiano dos bairros.
Na opinião de Oldack Chaves, dirigente regional de ensino de Piracicaba, o que importa não são os números que o Programa possui, mas a sua importância na humanização e na união da comunidade. “Nas visitas às escolas nós percebemos que as barreiras caíram. No começo ficamos um pouco inseguros, mas até agora ninguém se mostrou contrário à idéia”, informa Chaves, que completa: “Agora, nós perdemos a sensação de que a escola é só nossa”.
OPORTUNIDADE - A psicóloga Lucimara Zezi, 31, resolveu encarar os desafios do trabalho aos finais de semana. Desde junho, desenvolve atividades na Escola Estadual Professor Adolpho Carvalho, no bairro Cecap I. A unidade comemorou o aniversário do Programa Escola na Família no último final de semana. Além dos jogos de xadrez, dama e futsal, todos tiveram a oportunidade de freqüentar oficinas de informática, pintura em tecido e aulas de orientação profissional. Como todo aniversário, a data não passou em branco, e os eventos na escola aconteceram num ritmo diferente, com bexigas e um colorido todo especial, além das várias gincanas culturais. A unidade possui alguns cursos em andamento e, em breve, contará com uma escola dominical, que será desenvolvida por voluntários da Igreja do Evangelho Quadrangular.
Enquanto não arruma um emprego, Odivanda Maria Antônio Santos, 36, é da opinião que “ficar parada não leva a nada”. Tanto que agora freqüenta as aulas de preparação para o mercado de trabalho. “Foi a chance ideal. Já sei como preencher e enviar um currículo e acho que também não vou ficar mais nervosa na hora da entrevista”, afirma ela, que no sábado é aluna e, aos domingos, professora. “Até semana passada estava ensinando pintura em tecido para nove pessoas, mas o número de presentes tem aumentado a cada semana. Antes eram apenas duas integrantes na oficina. O que sei não quero que fique apenas comigo, por isso prefiro dar aula para quem quer aprender de verdade”, ressalta Odivanda.
VOLUNTARIADO - O estudante Alan Augusto Benatto, 13, está na oitava série do Ensino Fundamental e encontrou uma forma de colaborar com todos os envolvidos no Programa. Empolgado com a era digital e o mundo da informática, Benatto domina não apenas o Microsoft Word e a Internet, como possui habilidade na montagem e manuseio de micro-computadores. Após uma breve conversa com a diretoria do “Adolpho Carvalho”, o estudante, mesmo com pouca idade, passou a atuar na inclusão digital para mais de 30 pessoas. “No ano passado, logo que a escola passou a ficar aberta, vi que o programa era sério e que havia uma forma de contribuir. A maioria das pessoas aqui do bairro não possui noções básicas de informática e também não pode pagar um curso”, diz Benatto, que já deu aula para uma senhora de 50 anos.
Foi a motivação de Benatto que fez com que Sarah Regina Trevelin, 32, passasse a auxilia-lo nas aulas de informática nos finais de semana. “Aqui, as pessoas esperam muita coisa da gente. Elas querem sempre boas novidades. Uma aula é diferente da outra, além do que, a responsabilidade vai se acumulando com o passar do tempo”, acredita Sarah, que mora nas proximidades da escola.
RENOVAÇÃO - No bairro Novo Horizonte, onde está instalada a Escola Professor Francisco Mariano da Costa, os benefícios do Programa podem ser sentidos de longe. De acordo com Solange Zaparoli, diretora da unidade, desconfiança e medo eram as palavras mais usadas para definir o que os moradores sentiam em relação à escola. “Agora, os alunos e a comunidade podem sentir orgulho, levantar a cabeça e contemplar um “novo horizonte”, acredita a diretora.
Na opinião da educadora profissional do programa, Viviane Detoni, a abertura da escola deu um novo destino para os moradores do bairro. “Para eles é muito bom porque aqui não há outra opção. Então, é preferível que venham para a escola praticar esportes, danças ou assistir vídeos, a ficarem na rua com más companhias”, afirma Viviane. Ela revela que “três jovens usuários de drogas foram recuperados com ajuda das atividades de final de semana”
POLÍTICA - A Escola Augusto Saes, no bairro Nova América, há tempos reclamava da política da má vizinhança. A quadra de esportes e o pátio do local, sempre nos finais de semana, serviam de depósito de lixo dos vizinhos. Depois que as atividades começaram, a prática deixou de ser freqüente e o problema está sendo resolvido aos poucos. Não poderia ser por menos. No último sábado, 14, a escola comemorou um ano de atividades do projeto com muitos integrantes do bairro. Teve balão pula-pula, cama elástica, piscina de bolinha e animação da banda de MPB Jabolô. A escola serviu cachorro quente, pão doce, trufas, refrigerante, pastel, picolé e algodão doce.
De acordo com a vice-diretora Sandra Valarini, 38, a unidade é freqüentada por adolescentes entre 14 a 22 anos. “Nós trabalhamos com educação para crianças de 1ª a 4ª séries e, na verdade, o público que mais comparece são os jovens, embora sempre tenhamos visitas de pessoas de todas as idades”, informa. Sandra lembra que o forte da “Augusto Saes” tem sido as atividades esportivas.
Foi só a escola começar a ficar aberta que a estudante da sétima série do Ensino Fundamental, Juliana Regina Soares, 14, comemorou. “Antes, minhas amigas e eu jogávamos bola na rua ou então pulávamos o muro escondidas para jogar futebol na quadra. Hoje eu entro pela porta da frente e ainda tenho aquela assistência dos professores. Isso é bom! Dá até para dar uma namoradinha por aqui mesmo e ainda reúno meus amigos”, revela Juliana.
RESGATE - A iniciativa, porém, não beneficia apenas os alunos e pais dos bairros. Mais do que isso, ela é uma fonte de renda para estudantes universitários e educadores recém-formados. Foi o que aconteceu com a historiadora Maira Grigoleto, 23, que tirou a licenciatura em 2003. Assim que o Programa surgiu, ela passou a colocar em prática seus conhecimentos na centenária escola Barão do Rio Branco, no centro da cidade. “O programa abre possibilidades para o profissional da área tratar a educação como algo não curricular. No dia-a-dia da sala de aula isso não é possível. Sem falar na oportunidade de desenvolver projetos que auxiliam na educação de uma maneira diferente, mais informal. Com o Escola da Família, o educador pode se adaptar para trabalhar nos quatro eixos propostos: cultura, esporte, qualificação para o trabalho e saúde”, diz Maira.
Confiantes no sucesso da iniciativa, Robson Ribeiro, 20, e Rodrigo Ribeiro, 20, passaram a planejar uma aliança entre os músicos de rap da cidade para enriquecer as atividades na Escola Barão. “Entrei em contato com os grupos Prospectoh, Short, Estilo Favela e Microfone HQ. Em seguida, pudemos juntos implantar a “Corrente Africana”, nome escolhido para essa união. Aqui, no Barão, aproveitamos a arquitetura antiga e gravamos um videoclipe enquanto a escola permanecia aberta”, empolga-se Robson Ribeiro.
Osmir de Eugênio, 28, é do Instituto Via África e, junto com os outros integrantes da instituição, aproveita da estrutura da escola para promover um concurso de beleza diferenciado. “A meta é a inclusão social. Nós, da Via África, queremos fazer um festival que selecione modelos que possuam padrão estético um pouco diferenciado, valorizando sempre a cultura negra e fugindo do perfil capitalista. É uma preparação para o mercado profissional”, esclarece Eugênio.
A idéia correu de boca-em-boca e Maria do Carmo Rodrigues da Silva, 47, levou a filha e a neta para tentarem uma carreira na passarela. “Eu trouxe as duas em todos os ensaios. O pessoal da Via África também já vez um book fotográfico e isso foi maravilhoso. Se eu fosse procurar uma agência de modelos, no mínimo, ia gastar uns R$ 1,2 mil. Elas querem ser modelo e vou fazer de tudo para que dê certo”, diz Maria.
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Números favoráveis à comunidade
Nas escolas, índice de violência tem se mantido baixo, acredita dirigente de ensino
Desde a fundação do Programa Escola da Família, em oito de agosto do ano passado, a iniciativa une profissionais da educação, estudantes universitários e milhares de voluntários. Em 2003, o investimento total foi de R$ 60 milhões. A previsão para este ano é de R$ 184 milhões. Mais de 1,5 milhão de pessoas por mês passaram nas 1.037 escolas que integram o Programa na capital paulista. Em todo o Estado, a média tem sido de 5 milhões, de acordo com dados da Secretaria Estadual de Educação.
O dirigente de ensino Oldack Chaves esclarece que o índice de violência nos finais de semana tem se mantido baixo desde a implantação do Programa. “Não possuímos estatísticas em relação ao município, mas não tivemos maiores problemas neste período. Das 59 escolas, no que se refere a violências, houve apenas duas apurações preliminares, mas não significa que elas tenham ocorrido, necessariamente, aos finais de semana”, acrescenta Chaves.
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"Gallo" é modelo
de inclusão social
Na Vila Rezende, escola criou uma fanfarra que envolve os alunos, pais e portadores de necessidades especiais
Quando alguém chega na Escola Estadual Jerônymo Gallo, na Vila Rezende, durante as atividades do “Escola da Família”, o acolhimento começa logo no primeiro passo. A recepção não é feita pelos mestres ou diretores, mas por sorridentes e alegres crianças portadoras de necessidades especiais. Ao invés de apenas xadrez, futebol e uma sessão de cinema, as paredes do casarão que abriga a unidade respiram um caloroso bom dia, um afetivo abraço e brincadeiras inocentes. A escola abriu as portas para um projeto de inclusão social que deveria ser levado à frente em todos os Estados e nos centros educacionais do país.
Embora a escola abra logo no sábado de manhã, é às 15h30 que o movimento se acentua e o ambiente fica mais animado. “A integração entre os alunos da “Jeronymo Gallo” e os portadores de deficiências revela que no mundo da infância não há tantas diferenças assim. O que importa é a brincadeira, a amizade e a união de cada participante do programa”, acredita Rosani Rossetto Travaglini, 29, que é voluntária na fanfarra.
Bumbo naval, corneta, surdo, caixa e outros instrumentos são distribuídos para as 30 crianças presentes. 12 delas possuem dificuldades mentais, mas há quatro meses o local recebe um maestro, disposto a criar uma harmonia de sons e ajudar estas crianças a superar os obstáculos. Nos ensaios, os portadores de necessidades mostram que talento independe da capacidade e está vivo em cada um, basta ser despertado.
“Essas crianças possuem o lado artístico mais aflorado e adoram lidar com a música. Elas ainda pegam o ritmo muito rápido e são bem afinadas. Foi por este motivo que resolvi interar os alunos daqui com os da Associação Síndrome de Down, Escola Kaic e da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). A fanfarra deu certo graças ao trabalho voluntário e persistência dos pais”, acredita Maria Eugênia da Silva, que é diretora do centro de educação. Ela entende bastante da dedicação dos pais, já que possui um filho portador de deficiência. “Os pais deixam a casa de lado, os compromissos e passam a fazer parte da nossa fanfarra”, acrescenta, com um brilho nos olhos e um sorriso alegre.
A secretária Geovana Travaglini, 34, traz o filho Murilo, 9, para se integrar com as outras crianças. “Eu já conhecia o trabalho desenvolvido aqui e tentei trazer o Murilo várias vezes. No começo ele não queria participar, mas agora já está tranqüilo e tem se mostrado muito responsável e disciplinado. Ele adia passeios para tocar na fanfarra”.
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Sud Mennucci: a escola
que revela novos atores
Alunos e comunidade participam de grupo de teatro Sud Encena, com reuniões aos domingos
O grupo de Teatro Sud Encena já existia desde 2001, mas depois do surgimento do Programa Escola da Família, a unidade nunca mais deve voltar a ser a mesma. É que agora não apenas os alunos fazem parte dos ensaios de teatro, mas também parte da comunidade e ainda ex-alunos da instituição. Tanto esforço assim já rendeu várias apresentações em eventos da cidade.
De acordo com o estudante de jornalismo Anselmo Figueiredo, 27, voluntário da escola e responsável pelos ensaios, o grupo Sud Encena alcançou notoriedade na apresentação da peça “Encenação”, cuja estréia aconteceu no ano passado. Uma outra esquete, chamada “Um por um”, foi ensaiada e apresentada pelos jovens atores em locais como Sesc, Teatro Municipal, Mostra Estudantil do Colégio Piracicabano e na Semana Municipal Antidrogas, que aconteceu em junho desde ano. Somente com esta pequena montagem o grupo teve 11 aparições em diferentes palcos da cidade.
Figueiredo lembra que o sucesso nas encenações foi tanto que o grupo resolveu ampliar a montagem. Ao invés de apenas 15 minutos, como previsto no primeiro texto, agora será com uma hora de duração. “Nós fechamos o Teatro Municipal, em outubro do ano passado, para uma encenação exclusiva aos alunos dos três períodos da escola”, informa ele.
Estes não foram os únicos frutos que o “Escola da Família” gerou aos novos atores. Os ritmos dos ensaios, além da data, também tiveram alteração. “Nós nos reuníamos às quartas-feiras à tarde e os alunos que estudavam neste período não tinham a oportunidade de participar. Depois que a escola começou a funcionar aos domingos, não só os alunos do período da tarde integram o grupo, como também outras pessoas de fora”, acrescenta.
Suelen Bertin, 15, está no primeiro ano do Ensino Médio e desde pequena “gosta de interpretar outra pessoa”. Com a mudança dos ensaios para os domingos, a estudante pode exercitar um pouco do que ela define como “vocação”. “O ambiente entre o pessoal do grupo contribui para a construção da alta-estima. Somado ao incentivo dos meus pais, fico muito feliz fazendo o que gosto”, relata.
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Dados do programa em Piracicaba
·59 escolas abertas nos fins de semana
·23.063 participações em eventos culturais
·47.383 atendimentos na área esportiva
·3.952 pessoas em oficinas e cursos de capacitação
·2.986 atendimentos na área de saúde
·170 universitários bolsitas
·397 voluntários
·59 educadores profissionais
· 59 diretores, vice-diretores e coordenadores