
Música, poesia e uma mistura muito contemporânea. Estes três ingredientes terão mais sentido hoje, às 21 horas, quando sobe aos palcos do Sesc o músico e acima de tudo poeta, Arnaldo Antunes. Acompanhado de sua banda, ele traz ritmos casados com poesia, num clima de canções de amor que só “Saiba”, disco lançado em abril, pode proporcionar. Este é o sétimo trabalho solo de Arnaldo Antunes desde a saída dos Titãs. O disco é o primeiro pelo selo Rosa Celeste, lançado também em Portugal, por Arnaldo.
Depois do sucesso de Tribalistas, com repercussão em 46 países, o ex-Titã segue apostando na parceria com Marisa Monte e Carlinhos Brown. Mas fato é fato e Arnaldo está sempre em alta. Seja da época dos Titãs, seja com os Tribalistas ou ainda nas várias participações musicais. Mestre em boas canções, as letras deste poeta está nas vozes de vários nomes da música brasileira: Barão Vermelho, Cássia Eller, Marisa Monte, Benjor, Gal Costa, Cazuza, Belchior, Adriana Calcanhoto, Sandra de Sá, Gilberto Gil, Rita Lee, Nelson Gonçalves e muitos outros que também se encantaram com o estilo de Arnaldo.
Arnaldo garante muita sonoridade para hoje à noite. Em conversa com A Tribuna Piracicabana, o músico disse que irá percorrer e relembrar as velhas canções dos amigos Titãs, que também devem ganhar nova entonação e roupagem. Quem for ao show terá a oportunidade de ouvir “Cabelo”, música de Arnaldo em parceria com Jorge Benjor e que também foi lançada na voz de Gal Costa. O músico reserva ainda oito canções inéditas, para que o público “Saiba” que o novo disco está cheio de surpresas.
Cada fase da sua carreira mostra um Arnaldo de diferentes poesias. Como você consegue reunir leveza numa canção, ternura em outra e ainda colocar uma certa dose agressividade?
Eu sempre tive muito trato com a diversidade. Eu justamente saí dos Titãs para ter mais liberdade de misturar os gêneros, de brincar com a sonoridade. Eu gosto de conciliar os instrumentos acústicos com instrumentos eletrônicos. Também é muito gostoso cantar em vários registros de voz, desde o mais graves ao mais berrado e tranqüilo. Este disco, especialmente ele, há um predomínio de canções. Eu valorizei muito este formato. A sonoridade do disco está a serviço das canções. Isso acaba deixando o som mais leve. Mas você também encontra nele momentos mais contundentes, como é o caso da música “A razão dá-se a quem tem”, nessa regravação do Noel (Rosa). Tem ainda a “Elizabete no Chuí”, que carrega uma certa dose de brutalidade. Não vejo nenhum problema em conciliar a leveza com a brutalidade. São dos atritos que surgem resultados muito interessantes.
"Saiba" mostra um Arnaldo mais romântico, mais poético?
Agora eu estou para um lado mais sereno da minha carreira. “Saiba” pode ser definido como um álbum assim: sereno, calmo e por vezes terno. Mas essa tarefa deve ser para alguém de fora definir. É difícil avaliar o meu próprio projeto. O André Midani, que ficou responsável pelo release do disco, ressaltou bastante esse meu lado. É um olhar bacana, mas para mim, sempre fiz canções de amor. Teve participação de músicos que trabalham comigo há muito tempo, mas teve gente nova, teve variedade e deu diferença nos detalhes, na sutileza do formato. Isso deu formato para canção. Eu acho que o tempo todo temos que incorporar, integrar o amor e o sexo na vida, em todos os aspectos. Está tudo meio junto, o amor e o sexo, eles estão integrados no disco Saiba.
Nas canções de "Saiba", você continua em parceria com Marisa Monte e Carlinhos Brown. Até onde vai esta união?
A gente tem, além de afinidade artística, muita amizade. E tem um ponto positivo no meio disso tudo, que foi o disco “Tribalistas”, que serviu para aproximar muito a gente. Os frutos mais recentes desta união maravilhosa o público poderá conferir em “Saiba”, seja na parceria deles na autoria, seja eles tocando ou ainda cantando ao meu lado. É uma participação especial, que marca mais uma, das muitas novas e boas fases da minha carreira.
E por falar em Tribalistas, ainda existe a possibilidade de um outro álbum com os dois parceiros também no vocal e na poesia?
Tribalista foi um disco único. Foi um projeto muito especial na carreira de três artistas que tiveram sua projeção individual. Agora é diferente quando se fala em trabalhar junto com Carlinhos e Marisa. Aí sim é uma coisa que eu não pretendo parar, pelo menos por longa data eu ainda quero eles me ajudando na carreira.
Você acredita que o disco Tribalistas foi uma forma de mostrar mais o seu trabalho para os adolescentes ou a expandir a sua forma de poesia em nas mídias?
O sucesso de Tribalistas foi surpreendente, aliás, inesperado. O disco saiu em 46 países além do Brasil. Na Itália teve o prêmio de Platina Duplo, em Portugal saiu com Platina Triplo. Foi um marco que nos deixou contente. Popularizou de uma certa forma, mas não foi a nossa intenção. A gente fez o álbum por uma necessidade de expressão artística e não prevíamos o resultado do disco.
Porque você demorou tanto para lançar um álbum solo?
Demorou porque rolou o lançamento com os Tribalistas. Foi um projeto que acabou entrando entre Saiba e Paradeiro, que lancei em 2001. Mas eu penso que Saiba está sendo lançado no momento certo. Não gosto dessa coisa metódica, de gravar na data certa, de lançar cd de tempo em tempo. Eu faço quando está na hora. Acho que é o meu ritmo de gravação, que não costuma ser tanto regular, como acontece com outros músicos. A excursão de Paradeiro também se alongou bastante, eu acabei ela faz só oito meses. E eu estou sempre fazendo alguma coisa. Eu só não quero é ter pressa para ficar lançando disco. Eu só lanço quando vejo que o outro disco já cumpriu um ritmo de shows.
Como você concilia turnê, poesia e composição? Dá para trabalhar tudo ao mesmo tempo?
O que eu acho difícil é conciliar gravação com turnê. Geralmente quando eu vou gravar ou começar a preparar as gravações, eu paro de fazer show. A coisa de estúdio é um mergulho. Tem que dedicar exclusivamente para aquilo. Agora quando se fala em composição, eu vejo como um processo constante, principalmente em época de show. Eu componho bastante durante as turnês, até porque você fica viajando, leva o violão e faz música. O contato com o pessoal da banda ajuda. O fato dos shows acontecerem durante os fins de semana e eu ter a semana livre deixa a mente para compor em casa e me dedicar a outros projetos.
O André Midani dizia que você era o Caetano da nova geração. Depois ele percebeu que estava errado e disse que não é possível catalogar diferentes estilos. E você, em termos musicais, como se define?
Não tem nada a ver este tipo de comparação, mas eu não culpo o André, é uma questão de opinião. Eu acho que o Caetano está aí, fazendo sua obra, todo maravilhoso. Sou fã dele desde adolescente e amo o trabalho dele. O André falou e depois percebeu que estava errado, que não existe esta coisa de catalogar estilos, de comparar época e gêneros. Na minha música isto não existe e acho que na maioria dos músicos também não. Também não consigo olhar para dentro de mim e dizer: este é o Arnaldo. São muitos momentos. Cada momento é um momento e eu sou o Arnaldo Antunes, que hora é melódico, hora escreve, hora canta e o Caetano é ele mesmo, inconfundível, tem outro estilo e segue a sua linha.
Qual a bagagem musical que você traz para o show em Piracicaba?
Cantar é o que eu mais gosto de fazer. Eu estava morrendo de saudade do palco. Já fiz quatro shows nesta turnê, mas eu ainda estou mexendo um pouquinho ali, um pouquinho aqui e cada show sai diferente. É normal. As mudanças vêm com os shows que faço. Ainda mudo um pouquinho o roteiro. O cenário também ficou muito legal.