| Login | Crie o seu Jornal Online FREE!

Curta Cultura
Desde: 17/05/2004      Publicadas: 50      Atualização: 12/11/2004

Capa |  Artigos  |  Comercial  |  Cultura  |  Educação  |  Entrevista  |  Experimental  |  Geral  |  Literatura  |  Meio Ambiente  |  Notícias gerais  |  Turismo


 Experimental
  27/06/2004
  0 comentário(s)


Brasil está mais rico e desigual
Apesar de viverem mais, os brasileiros se distanciam cada vez mais da cidadania. As estatísticas mostram um mapa desenhado por mãos desiguais de gente sem retórica
"Eu ouço as vozes, eu vejo as cores, eu sinto os passos de outro Brasil que vem aí. Mais tropical, mais fraternal. Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil". Estes versos teriam sido uma visão equivocada do escritor Gilberto Freyre? Afinal, as Estatísticas do século 20, lançadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que, apesar de estar mais velho, mais alfabetizado, mais industrializado, o Brasil está mais desigual.

Entre 1901 e 2000, o país aumentou sua riqueza, mas não a repartiu. A população brasileira saltou de 17,4 para 169,6 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, o Produto Interno Bruto (PIB) multiplicou-se por cem, de R$ 9,1 bilhões para R$ 1 trilhão. O PIB per capita - hipotética divisão do PIB pela população - cresceu 12 vezes, de R$ 516 em 1901 para R$ 6.056 em 2000.

Embora enriquecida, a renda nacional ficou mais concentrada a partir de 1960, quando o rendimento recebido pelos 10% mais ricos era 34 vezes o obtido pelos 10% mais pobres. Em 1991, a diferença chegou a 60 vezes e, em 2001, os 10% mais ricos ganhavam 47 vezes o recebido pelos 10% mais pobres.

O Brasil encerrou o século 20 com a sexta pior distribuição de renda do mundo, atrás da Namíbia, Botsuana, Serra Leoa, República Centro-Africana e Suazilândia.
"Todo problema relacionado à miséria tem raiz na infinita desigualdade que atinge nossa sociedade. Por exemplo, o problema da fome só será realmente enfrentado quando a distribuição de renda for melhor equacionada", declara a historiadora Joseli Nunes Mendonça.

Inflação
A pesquisa do IBGE também aponta que a inflação brasileira atingiu números exorbitantes. Nos últimos 20 anos, a taxa total foi superior a 2 trilhões por cento.

Diante desse quadro, no qual os pobres continuam mais pobres e os ricos ganham mais, grande parte da população padece. "Faz sete anos que eu peço. Dá pra tirar R$ 200 por mês. O dinheiro do brasileiro nunca dá pra comprar um quilo de carne. Eu ganho aposentadoria de R$ 240, o preço que o rico paga para limpar o sapato. Era preciso um salário digno", afirma o pedinte Milton Francisco Rodrigues, 52, deficiente físico.

Sem muitas expectativas de mudanças, até mesmo líderes comunitários parecem desacreditados. "Acho que deveríamos voltar ao regime militar ou acabarmos numa guerra. Essa guerra já começou em São Paulo, onde os bandidos matam a polícia. De que adianta lutar para mudar a situação se não conseguimos?", questiona Luiz Antonio Leite, presidente do Centro Comunitário do bairro Boa Esperança, em Piracicaba (SP).

Para a historiadora Joseli Mendonça, "o descaso com a população pobre fica evidente com desmantelamento de serviços públicos, únicos aos quais essa população tem acesso. É muito triste vermos as filas de pessoas pobres doentes nos hospitais, os meninos da periferia nas ruas porque as creches não oferecem vagas suficientes e as escolas públicas estão abandonadas".

Educação
Em 1920, 65% dos brasileiros de 15 anos ou mais não sabiam ler e escrever. Em 2000, o índice era de 13%. A urbanização aumentou o número de alunos, de escolas, de professores e de universidades. Apesar do avanço, o Brasil ainda tem 16 milhões de brasileiros analfabetos. Com os analfabetos funcionais - pessoas que não completaram a quarta série do ensino fundamental - esse número salta para 30 milhões.

"Abandonei a escola na sétima série porque não dá futuro. O estudo não garante mais que R$ 300 no comércio. No lixo, ganho de R$ 150 a R$ 200 na semana", afirma Mirian Rodrigues, 21, catadora de lixo.

Mesmo na escola, alguns jovens não se sentem estimulados a estudar. Segundo a estudante do primeiro ano do ensino médio, Rafaela Macedo, 18, "o ensino é horrível. Professores e alunos estão pouco interessados. A escola é desorganizada. Não aprendo nada", diz.

De acordo com a historiadora Joseli, "enquanto as boas escolas, que preparam mais adequadamente para a profissionalização, forem privilégio dos mais ricos, a desigualdade social não pode ser enfrentada".

Saúde
Em 36% das cidades não há estabelecimentos de saúde suficientes para os doentes. Doze estados têm número insuficiente de leitos hospitalares e abaixo do que é recomendado pelo Ministério da Saúde, menos de 2,5 leitos para cada mil pessoas. Seis ficam no norte, quatro no nordeste, um no sudeste e um no centro-oeste. O número de leitos caiu nos últimos dez anos. Em 1992, eram 544.357 e passaram para 471.171 em 2002, uma queda de 13,4%.

Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2000, para cada 100 habitantes, sete a oito hospitalizações são pagas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). "O atendimento é mais ou menos, mas vai fazer o quê", diz Ângelo Martinez Sancho, 82, pipoqueiro.

Expectativa de vida
Um brasileiro que vivia 33,6 anos no início do século, em 2000, a esperança de vida era de 68,6 anos. Apesar da evolução, o avanço foi reduzido se comparado aos demais países. A expectativa de vida média nos países desenvolvidos é de 78 anos e na América Latina vive-se, em média, 70,3 anos.

A taxa de mortalidade infantil caiu. Em 1990, o número de óbitos era 47,5 para cada mil nascidos. Em 2001, a taxa estimada foi de 28,7. Apesar de viverem mais, os brasileiros se distanciam cada vez mais da cidadania. As estatísticas mostram um mapa desenhado por mãos desiguais de gente sem retórica.

"Se o pobre se esforça, ele não fica sem fazer nada, independentemente de ganhar pouco. O governo se preocupa primeiro com os poderosos e os outros que se virem. Quando todos se unirem e tiverem mais solidariedade, o ser humano, se quiser, pode mudar as coisas. Não é o Lula que tem que mudar", diz Rosélia Maria de Jesus, camelô há dois anos.

Para a historiadora Joseli, "do mesmo jeito que a desigualdade é histórica, é também o desejo de transformação e esta só ocorre pela mobilização das pessoas".

Texto produzido em parceria com os colegas
Catarine Alessandra
Felipe Rodrigues
Bárbara Luz

Publicado na edição de novembro de 2003, do jornal experimental Impressão
  Autor: Rodrigo Alves


  Mais notícias da seção Geral no caderno Experimental
27/06/2004 - Geral - Alca desagrada representantes das Américas
O acordo prevê o livre comércio das Américas e entra em vigor até 2005; especialistas são contra processo de unificação...



Capa |  Artigos  |  Comercial  |  Cultura  |  Educação  |  Entrevista  |  Experimental  |  Geral  |  Literatura  |  Meio Ambiente  |  Notícias gerais  |  Turismo
Busca em

  
50 Notícias