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Desde: 17/05/2004      Publicadas: 50      Atualização: 12/11/2004

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 Experimental
  27/06/2004
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Com Alca, país como um todo será afetado, diz Greenhalgh
Em agosto de 2003 a cidade de Piracicaba foi palco do 1ª Encontro Continental sobre a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), onde a maioria dos participantes, mesmo os americanos, se mostraram contra as negociações. Organizado por alunos da faculdade de direito, o evento contou com presença de nomes como João Pedro Stédile, líder do MST, Lídia Guevara Ramirez, secretária de Direitos Humanos em Cuba, entre outros nomes. Foram discutidos assuntos ligados à agricultura, direitos humanos, economia e soberania dos países. O deputado Luis Eduardo Greenhalgh (PT), presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Congresso Nacional, esteve presente na abertura do evento e falou sobre o papel do governo nas decisões. Ele acredita que o país está em fase de construção de um projeto econômico, por isso, deve dizer não à Alca. Confira a entrevista.
Impressão: O Brasil perde o ganha com a Alca?
Da forma como as negociações estão sendo realizadas, a soberania e o país como um todo será afetado. Se Lula aceitasse hoje a Alca, o Brasil deixaria de lado um projeto nacional de desenvolvimento, para se entregar ao destino do comércio exterior chefiado pelos Estados Unidos. São cem anos de trabalho e desenvolvimento perdidos. Costumo dizer que a Alca é um acordo em que os Estados Unidos entram com a corda e os outros países colocam o pescoço.

O assessor de relações internacionais do governo Lula, Marco Aurélio Garcia fala sobre uma “Alca Light”, isto é, um acordo mais diluído com os EUA caso eles não aceitem as propostas do Brasil. Existe essa possibilidade?
Os temas sensíveis dos EUA são o aço e agricultura. São produtos que o Brasil tem chance de competição. Enquanto eles (os EUA) querem o setor de compras, serviços e patentes. Há um choque de conflitos que deve ser levado à OMC (Organização Mundial do Comércio), que pretende resolver 60% dos problemas. Caso contrário, a Alca Light pode ser levada em consideração, mas o problema é que ainda que houvesse direitos iguais entre os países, os EUA usufruiriam de mais direitos que nós.

Caso o Brasil diga não a Alca ele não corre o risco de ser bloqueado economicamente?
Um bloqueio comercial como aconteceu à Cuba é quase impossível nos dias de hoje. Embora esteja em crise, a economia brasileira alcançou um estágio muito alto e os EUA não é capaz de sobreviver sem o nosso mercado. Eu defendo a tese que o Brasil tenha “free hands”, ou seja, mãos livres para negociar com a União Européia, com os países asiáticos e africanos.

Como o Brasil deve proceder para se fortalecer nessa luta?
A estratégia do governo é muito interessante. Lula está tentando unificar a América Latina e não só o Mercosul. Já estreitou laços com o Peru, Venezuela e Argentina. O presidente não mantém o mesmo tipo de política que os EUA mantém com o Brasil e isso já é um grande avanço. Um forte exemplo foi o empréstimo de um milhão feito ao governo Chavez e o constante socorro prestado ao governo argentino. Basta ter um espírito de liderança e generosidade.

E os argumentos de que a Alca atrairia investimentos para o Brasil?
A Alca não trará investimentos bons ao Brasil assim como o Nafta não trouxe ao México. A crise se alastrou pelo México e o país não é capaz de sobreviver sem os EUA. Mesmo os mais direitistas arrependem-se de terem feito um acordo de tal porte. Muitos países como o Caribe já estão totalmente dolarizados. A maioria depende totalmente do Estados Unidos. Como isso ainda não acontece aqui, sem dúvida alguma, a única coisa que interessa ao governo Bush é o mercado econômico brasileiro.

Qual a sua opinião sobre a postura de Lula diante das negociações?
A palavra do presidente Lula é a de continuar negociando, procurando um ajuste no que diz aos deveres e obrigações de cada país. Embora seja um acordo agitado, cabe ao presidente a palavra final. Ele será sensato e saberá decidir se a Alca prejudicará ou não a população de um país que orgulha tanto. Caso Lula opte por não assinar a Alca, acredito que Bush não nos faltará. Mas tenho fé em Deus e acho que Ele é um pouco brasileiro.

A solução é dizer não a Alca?
A solução para o Brasil é continuar negociando. Não podemos dizer não, mas também não podemos levantar da mesa e dizer tchau. Acho que se os EUA abraçassem os países americanos com jeito, ele seria um bom conquistador. Mas o abraço é tão forte que quebra a nossa costela.

Então significa que o senhor não tem uma posição concreta sobre as negociações?
Teremos setenta reuniões para discutirmos as questões até o final deste ano. Acho que a Alca é uma realidade, é quase impossível fugir dela. No entanto, se o Brasil caminhar certo diante das negociações, ela pode até ser positiva. É necessário esperar para ter uma posição. A proposta atual não me agrada, mas esse quadro pode ser revertido.

Esta entrevista foi publicada no jornal universitário Impressão, em setembro de 2003
  Autor: Rodrigo Alves
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