
“A milésima segunda noite da avenida Paulista” é o mais novo lançamento da série Jornalismo Literário da Companhia das Letras. O livro, uma coleção de reportagens, perfis e entrevistas de Joel Silveira, traz a carreira do jornalista que mudou a maneira de fazer jornalismo na década de 40.
O livro relata as infiltrações do repórter nas festas da elite paulista, as chamadas “noites de glórias”, as quais descrevia com minúcias, desde o vestido da madame ao discurso dos empresários, além dos pequenos desentendimentos de uma noite. O repórter, no entanto, não se limitava á descrição, mas incluía uma pequena dose de ironia e crítica em seus textos, fazendo com que não fosse barrado pelas antigas agências de repressão da Ditadura Militar.
Dono de um texto irônico e sedutor, Silveira era chamado por Assis Chateubriand de “a víbora”. Trabalhou nos Diários Associados, de propriedade de Chatô, e fez belíssimas reportagens, como “As muitas guerras de Monteiro Lobato”. O texto é uma perfeita biografia do escritor de contos infantis. Silveira entra na intimidade de Lobato sem invadir a privacidade, meche na ferida sem deixar seqüelas e aos poucos mostra um estilo que não se vê na imprensa atual.
Na reportagem que leva o nome do livro (A milésima segunda noite da avenida Paulista), o repórter traz os detalhes da festa de casamentos da filha do conde Francisco Matarazzo Júnior com o pracinha João Lage, ou nas palavras do próprio Silveira: “A mais bela festa do Brasil”. Segundo relatos do repórter a festa durou uma semana e contou com “duas orquestras num total de 150 músicos; cozinheiros caríssimos; fogos de artifícios especiais; o penteador Gervais, que cobrou apenas da noiva 2300 cruzeiros...”. Mas como o repórter não podia tamanha luxúria quieta, e ao final de relatos, Silveira encerra com a cerimônia de um casamento simples, a de um casal de operários das fábricas Matarazzo.
Com a palavra o repórter Silveira: “Depois do casamento, no dia seguinte, Nadir (a noiva) voltou para sua fábrica e José (o noivo) para a sua oficina”