
"Verbas, verbas são muitas:
Federais, estaduais, municipais,
Do setor privado, do público
Verbas vêm de todo lado"
Com os versos de improviso, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, deixou Piracicaba ontem, por volta das 16 horas, uma hora depois do previsto no protocolo oficial. Quando indagado sobre o valor que deixou ao Salão de Humor, nos momentos finais e quase dentro do carro, Gil preferiu responder na brincadeira e disse os versos acima. Ele esteve ontem, pela manhã, em Rio Claro e depois chegou em Piracicaba, por volta das 13 horas, quando almoçou com cerca de 200 pessoas no restaurante Mirante. Depois, seguiu para o Armazém 7B, no Engenho Central.
O valor, tão esperado pela Ação Cultural, deve ficar na casa dos R$ 200 mil (para o Salão de Humor), como anunciado na reportagem da Tribuna Piracicabana. Isso com base nas negociações do secretário Heitor Gaudenci, que esteve em Brasília no dia 27 de abril, com Juca Ferreira, secretário executivo do Ministério da Cultura.
O que Gil anunciou foi um valor maior: R$ 2 milhões, que pode vir a ser usado no Engenho. Mas a informação foi em tom informal. De acordo com Gaudenci, não está nada confirmado quanto ao valor. “Eu acredito que com os vários projetos de cultura da região, o Engenho pode ser beneficiado no conjunto, mas ainda estamos em fase de elaboração do projeto, ele ainda não foi entregue ao Minc”, esclarece o secretário.
A chegada do ministro ao Engenho foi tranqüila, não fosse o alvoroço da mídia. No local, cerca de cem pessoas aguardavam Gil. A presença veio até de representantes de outras áreas, como foi o caso de Cibele Marques, da Secretaria de Desenvolvimento Social, e Juan Sebastianes, ex-secretário do Meio Ambiente. Pessoas como Elias Rocha, o Elias do Boneco; Hélio Dias da Silva, do Centro Cultural Martha Watts, Celisa Amaral Frias, da Escola de Música Ernest Mahle, também marcaram presença. Os representantes dos municípios que fazem parte do Corredor Intermunicipal de Cultura compareceram em peso: Santa Bárbara, Americana, Rio Claro, Limeira, Araras, São Carlos e até Porto Alegre.
Na mesa, ao lado de Gil, o prefeito José Machado; Vera Brescia, delegada regional de cultura; Cláudio de Mauro, prefeito de Rio Claro, e Heitor Gaudenci. Ao som do Quinteto de Metais da Escola de Música Ernest Mahle, o público pode conferir o Hino Nacional.
Logo a apresentação ficou por conta dos alunos da quarta-série da Escola João Romão, que fazem parte da Congada Infantil do Divino Espírito Santo. Entre cochichos com Machado, Gil esqueceu de aplaudir os jovens garotos, mas soube consertar: falou da importância da Congada, da origem do nome e da beleza da dança. “Este é o nosso Brasil. Um país singular, num conjunto complexo. Um lugar que parece um mundo conturbado e belo, mas que é difícil e ao mesmo tempo rico”, completou o ministro.
Entre as saudações e agradecimentos a Gil, o secretário Gaudenci frisou a importância da posse dos 64 integrantes do Conselho Municipal de Cultura. Durante a fala do secretário, Gilberto Gil pára, olha para cima, dos lados e observa com atenção o Engenho Central.
Além de ressaltar que Piracicaba é o berço do modelo republicano, o prefeito José Machado falou do outro lado do ministro: a carreira artística. “Gil é um cidadão do mundo. É uma referência mundial para a música”, disse Machado, que completou: “mas o Gil como ministro vai atuar na busca e no desafio de mantermos o Engenho Central. Ele será nosso parceiro”.
Com a voz rouca, Gilberto Gil começou o discurso provocando risadas e aplausos. Ele pediu para que os cinegrafistas da imprensa saíssem de frente da mesa e liberasse a visão do público. A surpresa veio e o ministro mais uma teve que consertar: “A mídia é a janela para o mundo, mas ela deve estar sempre aberta e deixar todos em pé de igualdade”.
O Teatro São José ainda permanece na memória de Gil. Ele falou da última vez que esteve na cidade, por volta de 1973, quando fez uma apresentação musical. Saudosista, falou que deseja voltar à cidade com todos os vitrais restaurados, “de vidros coloridos e transparentes”. Bem informado, lembrou da importância do projeto de Museu de Ciência e Tecnologia. “Tem que ser feito com a minha ajuda e de todos vocês, para comprovar que o meu encontro não foi em vão. É para o sonho de um futuro”, afirmou.
Para finalizar o evento, mesmo com pouca voz, o ministro não deixou de dar uma ´palhinha`. Pediu acompanhamento do Quinteto de Metais e entoou um trecho do Hino Nacional.
Desde FHC, Salão sofre com falta de verbas
Durante a sua performance no Engenho Central, o ministro da cultura Gilberto Gil mostrou-se distante da realidade do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Durante as declarações à imprensa ele disse que “o Salão caminha com suas próprias pernas, ele já tem mais de 30 anos de tradição”.
Mas, como comprovam os fatos, o ministro se enganou, já que o evento não recebe verbas federais desde 2002, época em que o país ainda era presidido por Fernando Henrique Cardoso. “A última verba que recebemos foi do FHC. Desde que o Lula entrou, não chegou nenhum centavo”, diz o secretário Heitor Gaudenci, que acrescenta: “Em 2002, o Salão aconteceu num clima meio arroz com feijão”.
Em 2003, a coisa não foi diferente e os 30 anos do Salão foi comemorado com apoio de verbas municipais e do setor privado. Para 2004, como o projeto prevê gastos de R$ 500 mil e a organização do Salão vai receber apenas R$ 200 mil, os esforços não serão diferentes e vários projetos já foram encaminhados para o setor privado, na tentativa de “suprir as falhas ao longo do processo”.
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